Comunidades GNU/Linux. Entrevista com Alessandro Ebersol

Alessandro Ebersol

É difícil falar em GNU/Linux sem falar da sua comunidade, ou comunidades. Estas são fundamenteis para o crescimento e desenvolvimento do Linux e software Livre. Não só pelo feedback, divulgação, bem como por todo um trabalho desenvolvido em função de um interesse comum. E se estamos a falar de um sistema operativo de código aberto e muitas vezes gratuito, o trabalho desenvolvido pela comunidade é essencial. Pois, quanto maior o envolvimento da comunidade de uma distribuição Linux melhor será a sua qualidade.

Para entender um pouco o funcionamento de uma comunidade, contactei um velho conhecido para uma ligeira troca de palavras sobre o tema. Trata-se de Alessandro Ebersol da comunidade brasileira do PCLinuxOS.

Este é a primeira conversa de várias com elementos de várias comunidades Linux. Outras surgirão em breve.

Como começou a tua ligação ao GNU/Linux?

Eu conheci o Unix em 1996. Na época trabalhava como técnico de automação bancária, que foi um segmento que teve um crescimento muito grande no Brasil, por causa da reserva de mercado de informática. Conheci o SCO Unix (antes dele pertencer a Caldera e ter acontecido todo aquele fiasco). Na época, fiquei extasiado: É bom demais esse SO. E, naquele tempo, eu meio que senti que um dia sistemas operacionais Unix iam dominar o mundo. Passaram-se alguns anos, e, em 2003, eu fui fazer um curso de Conectiva 8, foi minha primeira distro, e, fiz um curso de Conectiva 8 server. Me apaixonei, Conectiva era muito boa (e, naquela época, o Brasil era muito mais relevante no Software Livre do que hoje, já que a Conectiva e seus empregados fizeram muita coisa boa para o GNU/Linux – Synaptic, Apt4RPM, Windowmaker, esses que eu lembro de cabeça.) Daí, eu ainda usava o Windows, nessa época era o 2000 (que foi o que mais gostei da MS), e, passei 2 anos migrando tudo que eu usava no Windows e, em 2005 eu passei a usar só Linux, exclusivamente, e, desde então é o que tenho usado e não me arrependo nenhum pouco.

Como é que surgiu a comunidade brasileira do PCLinuxOS?

Eu conto um pouco da história das comunidades do PCLinuxOS no Brasil, na tela de boas vindas das versões mais recentes das ISOS do PCLinuxOS Br. Basicamente, houve duas comunidades, uma que nasceu em torno de 2007 e “faleceu” em torno de 2010. Essa comunidade, eu tive um envolvimento muito superficial, já que comecei com o PCLinuxOS em 2007, há 11 anos atrás. Mas, eu era só um cadastrado no site daquela comunidade. O pessoal daquela comunidade passou a ter diferentes interesses e dissolveu a comunidade PCLinuxOS Br como ela era. Então, um bom amigo nosso, Otto Sá, o carioca, me contactou e me propôs continuar com a comunidade, já que o PCLinuxOS era muito importante para não ter representação no país. Começamos com um site gratuito, depois conseguimos um domínio, depois um site (que gentilmente é hospedado pelo Sr. Carlos Lorenzon, ao qual somos todos gratos, senão estaríamos no site livre até hoje – risos), e, depois disso, eu me propus a conseguir um mirror para o PCLinuxOS aqui no Brasil, para facilitar os downloads, actualizações, e, graças ao bom Deus, conseguimos um mirror na UFPR, que é uma universidade muito conceituado pelo seu apoio ao Software Livre no país. Depois disso, pedi licença ao Sr. William Reynolds, para que eu pudesse fazer as versões brasileiras, ele deu o sinal verde, aprendi a mexer com as ISOS do PCLinuxOS, logo depois me tornei empacotador, e, estamos aqui até hoje. E, a segunda comunidade já fez 7 anos (foi fundada em 2011).

O que é que é isso de uma comunidade de uma distribuição Linux? Que tipo de iniciativas e tarefas vocês desenvolvem?

Olha, é um coisa bem interessante, e, me faz amar cada vez mais o Linux comunitário. Sabe, comunidades de verdade, não distros comerciais (que eu não vou mencionar, pois, sabes quais são) que “fingem” ser comunitárias, mas é só ilusão: Botam um bom número de gente para encher as fileiras, mas são apenas decoração. As pessoas não tem vez nem voz, e, a “comunidade” segue o que a empresa determina, e os incomodados que se mudem. Numa distro comunitária de verdade, cada um participa, faz alguma coisa e se trabalha para o bem de todos, não para avançar os planos do departamento. de marketing de alguma corporação endinheirada. Pode parecer romântico, mas, é comunidade de verdade. É trabalho voluntário e pessoas trabalhando para agradar pessoas, não para fazer números.

Por causa do trabalho voluntário, me tornei empacotador, pois fui no fórum Americano e reclamei que faltava um pacote (que agora não lembro) e, alguém, que também não recordo, perguntou: Por quê não fazes os pacotes que faltam ?
Bom, daí, o resto é história.

Em termos de tarefas, sou mais ou menos como um homem orquestra, sabes, aquele que toca gaita de boca, toca bumbo e pandeiro, faço pacotes, faço as Isos Br, escrevo para o meu blog e para a revista Americana do PCLinuxOS, mas, não reclamo. É estimulante. Ás vezes não consigo fazer tudo que gostaria, mas, faço bastante. Quanto aos nossos amigos, graças a Deus temos uma comunidade bem participante, temos um pessoal muito bom que testa as coisas que eu faço, tem até um gajo d’além mar, um tal Paulo Trindade, não sei se conheces, que ajuda também quando requisitado… (risos)

Ambiente de trabalho da versão XFCE do PclinuxOS da comunidade brasileira.

Hoje existe uma enorme oferta de distribuições Linux. Talvez demasiada. Quais as vantagens que uma distribuição como a PCLinuxOS oferece ao utilizador comparando com as restantes?

Olha amigo, estás a ver o copo meio cheio, e, eu vejo-o meio vazio. Depois do que aconteceu com a comunidade Debian, muita diversidade do Linux desapareceu, e, muitas distros desapareceram. Fuduntu, Pardus, Mepis, Mandriva, Kurumin (Br), Big Linux (Br), apenas para citar algumas. Então, eu vejo com bastante receio o que está ocorrendo atualmente com as distros: Se fossem comerciais, Ok, a empresa quebra e a distro vai junto. Mas, houve muitas comunitárias que foram a pique. Como? Não é uma resposta simples, mas, basicamente (que foi o que eu soube que ocorreu com a distro Fuduntu, pois era próximo do Andrew Wyatt, seu criador) foi que o desenvolvimento do Linux ficou tão complexo, que acabou por matar distros que tinham poucos voluntários para desenvolver. Não sei com outras, mas, com a Fuduntu foi o que houve.

Agora, sobre vantagens, eu diria uma coisa: Tecnologia, todas têm. E, $$$ algumas terão, outras não. Basicamente, serão todas iguais, o diferencial serão as comunidades: Se o usuário tem participação, ou se é algo de cima para baixo e a “comunidade” só faz figuração. Então, eu aconselho: procure distros que dêem espaço aos usuários, onde os usuários possam ser ouvidos, respeitados e que tragam soluções também (muita coisa que fiz, foi por sugestão de colegas usuários do PCLinuxOS), ou seja, interacção.

O PCLinuxOS Brasil, como diferencial, tem isso. E, todas as distros comunitárias de verdade permitem o acesso ao pessoal do desenvolvimento. Afinal, uma das maiores e melhores características do Open Source é o acesso aos devs. Eu mesmo já pedi a desenvolvedores fazerem alterações, para que seus programas rodassem no PCLinuxOS e, sempre fui atendido.

Depois da fracção que houve devido aos pacotes RPM de Debian surgiu outra nova com o surgimento dos pacotes Flatpak e Snaps, que surgiram para serem universais. Qual a vossa visão sobre estes novos pacotes? Achas que poderemos ver algum destes dois ser adaptado pelo PCLinuxOs?

Flatpak é mais possível, porque agora não depende mais daquele DAEMON que não deve ser dito (sabes, como o Waldemort, do Harry Potter –risos). Snap é mais específico do Debian, eu penso. Appimage’s são meus favoritos: Só dar permissão de execução (chmod +X) e pronto, a coisa começa a trabalhar. Agora, eu penso que os Appimage’s deveriam ser o padrão, já que não dependem de nada, não precisam de nenhuma ligação com o sistema e rodam no Squash FS, como se fossem um Live CD, uma solução bem elegante.

Sentem que o trabalho desenvolvido por vocês é recompensado? De que forma?

Financeiro, eu até gostaria que tivesse mas eu sempre trabalhei para ajudar a outros. Por exemplo, houve um post na nossa comunidade que me encheu de alegria: Um individuo relatou que a ISO que eu fazia ajudou-o a instalar os computadores que ele tinha em sua escola, já que não tinham dinheiro para contratar um técnico que pudesse fazer isso. A sensação ao ter conhecimento da história não tem preço.

Falando de comunidade. Como vês a evolução que a comunidade Linux tem tido? Que retrato fazes da comunidade Linux actual?

É, é meio complicado. Parece que o GNU/Linux sofre um esvaziamento, justo quando estamos melhor do que jamais estivemos. Muitos sites de comunidades fecharam e o pessoal migrou para o Facebook, que é horrível. As pessoas não tem comprometimento algum no Facebook, e, dizem muita bobagem de forma irresponsável. E, perdemos muitos usuários para o Mac. É, tem esse esvaziamento, o pessoal começa no Debian, pula para o Ubuntu e depois para o Mac. Nas convenções e encontros, lá estão eles, desfilando seus notes com aquela maçã mordida. Claro que todos tem seus argumentos mas eu já trabalhei com Macs e considero que lhes faltam algumas bibliotecas e não te permitem fazer muita coisa com eles. São mais um objecto de ostentação. Para criar coisas, tenho minhas dúvidas.

Voltando as comunidades, olha, só quem verdadeiramente AMAR o GNU/Linux vai prosseguir com ele. O quadro é meio feio, a longo prazo.

Além da PCLinuxOS que outras distribuições Linux simpatizas? Se não existisse PCLinuxOS, que distribuição usarias?

Baseadas no Slack. Puppy, Zenwalk, Vector Linux, Slithaz, o OpenSuse eu usei um tempo, gostei muito do Yast, gostei do Void Linux também, mas, houve um problema com o único Dev, então não recomendo muito. Alguns BSD’s, como Ghost e o TrueOS (PC BSD). Eu testei o Free BSD puro e foi pedreira, mas, foi interessante: É como o Linux, há uns 15 anos atrás (risos). Para servidores, é óptimo. No desktop, é meio trabalhoso, para quem já se acostumou com o Linux.

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